Imprensa

|

Notícias

27/04

Como vai ser o futuro pós-coronavírus - Indústria da Moda

Depois da crise atual acalmar, a indústria da moda, segundo a McKinsey, irá enfrentar um mercado em recessão e uma paisagem industrial ainda em transformação dramática.

COMPARTILHAR:

Os empresários da indústria da moda, nas suas diferentes vertentes, estão atualmente concentrados na gestão da crise em curso, mas, aponta a McKinsey, terão de mudar o seu foco para reinventar o negócio face às mudanças ao nível do consumo e do próprio aprovisionamento.

Mesmo antes do novo coronavírus ter afetado os mercados financeiros, suspendido as cadeias de aprovisionamento e dizimado a procura do consumidor na economia mundial, os líderes da indústria já não estavam otimistas em relação a 2020.

Os sinais de alerta eram evidentes, como se apontava no estudo State of Fashion 2020, promovido pela McKinsey & Company e o Business of Fashion, publicado no final do ano passado. Apenas alguns meses depois, contudo, as perspectivas dramatizaram-se e são ainda mais negras, elevando o nível de alerta para o máximo. As duas entidades atualizaram o estudo, para dar uma perspectiva aos profissionais do sector sobre com o que podem contar nos próximos 12 a 18 meses depois do pico da crise sanitária.

Nuvens negras

A mensagem que tem sido passada é que a pandemia atual pode levar à maior crise económica desde a II Guerra Mundial, atingindo todos os sectores. A moda, tendo em conta a sua natureza discricionária, está «particularmente vulnerável». A valorização média do mercado de vestuário, moda e luxo caiu quase 40% entre o início de janeiro e 24 de março – um declínio muito mais acentuado do que o mercado bolsista em geral, indica a McKinsey.

As repercussões humanitárias deverão ultrapassar as do próprio surto. As consequências para a moda, uma das maiores indústrias do mundo, que, antes da crise sanitária, gerava 2,5 biliões de dólares (cerca de 2,3 biliões de euros) em receitas anuais, incluem redução dos postos de trabalho e dificuldades financeiras para as pessoas envolvidas na cadeia de valor.

«Estimamos que o volume de negócios da indústria mundial de moda (sectores do vestuário e calçado) vai contrair 27% a 30% em 2020 em termos anuais, embora a indústria possa voltar a ter um crescimento positivo de 2% a 4% em 2021 (em comparação com os números base de 2019)», aponta a consultora.

Para a indústria de bens de luxo, a McKinsey estima uma contração de 35% a 39% no volume de negócios em 2020 em termos anuais, mas um crescimento positivo de 1% a 4% em 2021. Se as lojas continuarem encerradas nos próximos dois meses, a McKinsey antecipa que 80% das empresas de moda cotadas em bolsa na Europa e na América do Norte ficarão com problemas financeiros.

Em conjunto com a análise do índice McKinsey Global Fashion, que concluiu que 56% das empresas de moda mundiais não estão a ganhar o custo do capital em 2018, «esperamos que um grande número de empresas mundiais de moda entre em falência nos próximos 12 a 18 meses», sublinha.

A interligação da indústria e a sua globalização tornam difícil fazer planos a médio prazo. A China está a começar a recuperação numa altura em que o surto piorou na Europa e nos EUA. Mas será no mundo em desenvolvimento, onde os sistemas de saúde são muitas vezes inadequados e a pobreza grassa, que as pessoas serão mais atingidas. «Para os trabalhadores em centros de produção de moda e sourcing a baixo custo, como o Bangladesh, o Camboja, a Etiópia, as Honduras e a Índia, períodos alargados de desemprego vão significar fome e doenças», refere a McKinsey.

Do lado do consumidor, o pessimismo deverá instalar-se e, como tal, a indústria da moda «está apenas no início da sua luta». Ao afetar tanto a oferta como a procura, a pandemia criou uma «tempestade perfeita» para a indústria: uma cadeia de aprovisionamento altamente integrada significa que as empresas têm estado sob uma enorme pressão enquanto tentam gerir crises em múltiplas frentes, já que o confinamento foi ditado em sucessões rápidas, parando primeiro a produção na China, depois em Itália e em seguida em diversos países em todo o mundo.

Uma estagnação no consumo está a agravar a crise do lado do aprovisionamento. O encerramento de lojas de uma indústria ainda dependente do canal físico, juntamente com o instinto do consumidor para dar prioridade ao necessário em vez do discricionário, atingiu as marcas em força e esgotou as reservas de liquidez. Mesmo as vendas online caíram 15% a 25% na China, 5% a 20% na Europa e 30% a 40% nos EUA.

O que virá depois

Depois da crise atual acalmar, a indústria da moda, segundo a McKinsey, irá enfrentar um mercado em recessão e uma paisagem industrial ainda em transformação dramática. «Esperamos um período de recuperação caracterizado por uma continuação da lentidão do consumo e uma diminuição da procura em todos os canais», sustenta, acrescentando que «a mentalidade do consumidor estava já a mostrar sinais de estar a mudar em certas direções antes da pandemia».

O resultado da “quarentena de consumo” pode acelerar algumas destas mudanças do consumidor, como a crescente antipatia por modelos de negócio que produzem resíduos ou expectativas mais elevadas para uma ação das empresas que vai além do negócio e beneficia a comunidade.


«Entretanto, algumas das mudanças que vamos testemunhar no sistema moda, como a mudança no passo digital, retalho dentro da estação, design sem sazonalidade [como fazem as portuguesas HIBU ou Nuno Baltazar] e o declínio das vendas por grosso, são sobretudo uma aceleração do inevitável – coisas que iriam acontecer mais tarde se a pandemia não as tivesse ajudado a ganhar velocidade e urgência agora», realça a consultora.

O Covid-19 trouxe, todavia, uma oportunidade para a indústria da moda reinventar totalmente a sua cadeia e reavaliar os seus valores e ações. «Esperamos que os temas da aceleração digital, descontos, consolidação da indústria e inovação corporativa sejam prioritários assim que a crise imediata passar», enumera a McKinsey, destacando que «mesmo após testemunhar ondas de insolvências, os líderes da indústria terão de se habituar à incerteza e impulsionar esforços para blindar o futuro, tendo em conta o potencial de haver novos surtos e confinamentos».

Esses esforços terão de passar igualmente pela colaboração, mesmo entre concorrentes. «Nenhuma empresa vai passar sozinha pela pandemia e os atores da moda terão de partilhar dados, estratégias e informação sobre como atravessar a tempestade», reforça a consultora, que aconselha fornecedores, marcas e até senhorios a encontrarem formas de partilhar as dificuldades.

«Navegar nesta incerteza não será fácil para os líderes [da indústria] da moda. Os atores têm de ser decisivos e começarem a colocar em curso estratégias de recuperação para emergir com uma energia renovada. A crise é um catalisador que vai forçar a indústria a mudar – agora é altura de nos prepararmos para um mundo pós-coronavírus», alerta a McKinsey.

Fonte: Portugaltextil

Foto: Divulgação


Fonte: Fonte: Portugaltextil Foto: Divulgação